Existe ex-dependente?

A polissemia da pergunta "Existe ex-dependente?"



A pergunta "Existe ex-dependente?" é polissêmica (possui vários sentidos) e pragmática (a resposta depende da real intenção de quem fez a pergunta). Inclusive, existem, no mínimo, 06 (seis) variedades de indagações e respectivas respostas sobre o tema.

 

No viés da ilusão de controle, indaga-se se é possível voltar a consumir a droga de eleição sem retornar à adicção. A resposta é negativa para a substância específica, mas, sob um conceito maximizado de drogas (que amplia o termo para abranger questões como consumo de açúcar, preguiça e sedentarismo), muitos abstêmios poderiam ser considerados "ex-dependentes", desde que evitem substâncias correlatas.

 

No viés da busca pela cura, a pergunta questiona se a adicção tem cura. Pela visão médica, não há cura, apenas remissão dos sintomas. Já por perspectivas espirituais ou da soberania individual, a pessoa pode sentir-se curada ao retomar o controle, mas nunca estará "curada para consumir" novamente.

 

No viés da remota possibilidade de recaída, pergunta-se se há imunidade à recaída. Embora o risco seja permanente, com longo tempo de sobriedade e lastro abstêmio, a probabilidade torna-se estatisticamente desprezível, existindo sim "ex-dependentes" com baixíssimo risco.

 

No viés da identidade e do rótulo social, busca-se saber se o dependente será sempre definido pela patologia. A resposta é que o estigma pode ser superado com a construção de uma nova identidade abstêmia, desvinculando-se da carga pejorativa do passado.

 

No viés da validade do esforço contínuo, indaga-se se a vigilância é eterna e exaustiva. A resposta esperançosa é que, com o tempo, o esforço se transforma em autocuidado natural e libertador, e a sobriedade torna-se o estado basal de uma vida plena.

 

Por fim, no viés da reversibilidade de danos bioemocionais, pergunta-se se o cérebro pode voltar ao estado anterior à adicção. Tecnicamente, a "inocência neurológica" não se recupera, mas ocorre uma recalibragem dos receptores, permitindo sentir prazer nas coisas simples e alcançar uma maturidade neurológica superior, onde o indivíduo torna-se gestor consciente de suas gratificações.


Recomendo a leitura do texto, na íntegra, no nosso site.


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Bons estudos!

Escritor: Péricles Ziemmermann