Características da fissura
Características da fissura
No âmbito dos estudos abstemiológicos,
a fissura é definida como o momento em que o abstêmio, após percorrer uma linha
causal de desdobramentos frequentemente iniciada por gatilhos – de forma
consciente ou inconsciente, com ou sem sintomas –, experimenta um desejo
intenso de reintoxicar-se e retornar ao processo de adicção. Para fins
didáticos, compreende-se de forma mais ampla como uma vontade intensa de
consumir drogas ou álcool após um período de abstinência.
O modelo abstemiológico analisa as
características da fissura sob a perspectiva de indivíduos com longos períodos
de sobriedade, examinando como ela se manifesta no modo de pensar, sentir e
agir. Entre as suas características principais, identificam-se a
alertabilidade, que serve como um sinal inicial de descontrole; a
anestesiadora, que reduz a afetividade, resultando em irritabilidade e
intolerância; e a desestabilizadora, que impacta as esferas emocional,
racional, biológica e espiritual.
Ademais, a fissura possui caráter
desmotivacional, direcionando a energia psíquica do indivíduo para a superação
de seus sintomas e podendo ser confundida com a síndrome amotivacional. Provoca
também inconfortabilidade, gerando desconforto emocional, insônia, tristeza e
pensamentos negativos obsessivos, os quais podem afetar a base da pirâmide da
recaída. A característica de insustentabilidade indica que a fissura não se
mantém sozinha, podendo ser intensificada ou atenuada por pensamentos e emoções
negativas ou positivas, respectivamente.
A fissura é considerada não
punitivista, por ser um efeito natural e normal da abstinência, muitas vezes
desencadeada de forma involuntária. Sua naturalidade reside no fato de ser um
efeito de um desejo artificialmente criado durante o processo de vício.
Apresenta ainda perpetuidade, podendo surgir em qualquer fase da vida, embora
com temporariedade, sendo geralmente de curta duração.
Outras características incluem a
petrificadora, que estagna e foca o pensamento do abstêmio; a plasticidade, que
se oculta detrás de certas condutas ou pensamentos aparentemente neutros; e a
precipitabilidade, que induz a decisões irracionais, exigindo avaliação
criteriosa e, quando necessário, a prática de acinesia abstêmia.
A prioritariedade atribui caráter de
urgência à compreensão e superação consciente da fissura, a fim de evitar que
evolua para uma recaída emocional. A reflexibilidade mostra que decisões
prudentes atenuam seus efeitos, enquanto atitudes impulsivas os intensificam. A
relacionalidade estabelece uma conexão, nem sempre proporcional, com gatilhos,
podendo estes ser de pequena magnitude e gerar grandes fissuras, ou vice-versa.
A responsabilidade dupla gerada pela
fissura inclui a cobrança pela história de uso de substâncias e a necessidade
de superá-la para manter a abstinência. A sufocabilidade descreve a sensação de
que a reinserção no consumo parece uma solução, embora seja ilusória, criando
um ciclo de retroalimentação que exige técnicas abstemiológicas para ser
interrompido.
A suportabilidade assegura que toda
fissura é passível de ser suportada, especialmente com o domínio de técnicas
para reduzir sua sintomatologia. A temporariedade reforça sua curta duração,
distinguindo-a da recaída emocional, que envolve a decisão de consumir. A
tensionadora aumenta a ansiedade e a irritabilidade, enquanto a tolerabilidade
e a tratabilidade destacam a necessidade de compreensão racional e a existência
de formas de combatê-la e atenuá-la.
Por fim, a universalidade afirma que
todos os abstêmios vivenciam ou podem vivenciar fissuras, e a variabilidade
descreve sua flutuação de intensidade, podendo ser progressiva, regressiva ou
estacionária.
Em conclusão, a análise das
características da fissura sob a ótica abstemiológica revela um fenômeno
complexo e multifacetado, inerente à condição abstêmia. Sua natureza dinâmica e
adaptável exige o desenvolvimento contínuo de estratégias de enfrentamento
baseadas no autoconhecimento e na gestão racional dos sintomas. A compreensão
desses atributos é fundamental para a desmistificação do processo e para a
implementação de intervenções eficazes, permitindo que o manejo da fissura se
constitua como uma habilidade técnica. Isso possibilita ao abstêmio não apenas
suportar episódios agudos, mas também fortalecer sua recuperação a longo prazo,
transformando um potencial fator de recaída em uma oportunidade de consolidação
da sobriedade.
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Bons estudos!
Escritor: Péricles Ziemmermann
